Radiofármaco · Beta + gama · Sistema simpático

131I-MIBG
Iobenguano · o pioneiro da teranóstica catecolaminérgica

Análogo da noradrenalina marcado com iodo-131. Concentra-se em células que expressam o transportador de noradrenalina (NET) — fenótipo característico de tumores derivados da crista neural: neuroblastoma, feocromocitoma e paraganglioma. Primeiro radiofármaco teranóstico em uso clínico amplo (desde 1981) e ainda referência em PPGL maligno e neuroblastoma de alto risco.

131 I Iodo
Meia-vida
8,02 d
Decaimento
β⁻ + γ
Energia β máx
606 keV
Alcance β máx
~ 2 mm
γ útil
364 keV (81%)
Vetor
meta-iodo-benzilguanidina

01 Cronologia

Da síntese pioneira de Wieland & Beierwaltes (1980) à aprovação Azedra (2018) e às combinações modernas com epigenética e imunoterapia: 45 anos de evolução em pediatria oncológica e endocrinologia.

1980

Síntese do MIBG · Wieland & Beierwaltes

Donald Wieland e William Beierwaltes na Universidade de Michigan sintetizam o 123I-MIBG e 131I-MIBG, buscando análogos da noradrenalina captados pelas células cromafins da medula adrenal. Estrutura: meta-iodo-benzilguanidina — combina anel benzeno com carga radioiodada e cadeia guanidínica.

1981

Primeiras imagens em feocromocitoma · Sisson

Sisson, Wieland, Beierwaltes e cols. publicam as primeiras imagens diagnósticas de feocromocitoma com 131I-MIBG (NEJM 1981). Marca o nascimento da imagem molecular catecolaminérgica.

1983

Primeiro uso terapêutico · Hoefnagel

Cornelis (Kees) Hoefnagel (Holanda) trata o primeiro paciente com PPGL maligno usando 131I-MIBG em altas atividades. Resposta sintomática e bioquímica notável. Início do conceito teranóstico moderno.

19851995

Adoção em neuroblastoma pediátrico

Grupos europeus e americanos passam a usar 131I-MIBG em neuroblastoma alto-risco refratário/recidivado. Esquemas iniciais empíricos: 18 mCi/kg em dose única. Resposta objetiva 30-40% em situação refratária.

20002010

Padronização e dose-escalada

Refinamento dos esquemas: 18 mCi/kg dose única vs 12+12 mCi/kg fracionado vs dose ablativa com resgate de células-tronco. Studies do Children's Oncology Group (COG) e SIOPEN europeu definem protocolos.

2018

Aprovação FDA do Azedra (Iobenguano I-131)

FDA aprova o Azedra — formulação comercial no-carrier-added do 131I-MIBG (atividade específica muito maior, sem MIBG frio competidor) — para PPGL maligno irressecável que requer terapia sistêmica. Base no estudo Phase II de Pryma e cols. (J Clin Oncol 2019).

20182024

NANT, MIBG-MIDAS, combinações epigenéticas

New Approaches to Neuroblastoma Therapy (NANT) testa MIBG + vorinostat (HDAC inhibitor — aumenta expressão NET). Estudo MIBG-MIDAS na pediatria avalia sequenciamento e dose. MiNivAN/OnDApp combina MIBG ± nivolumab em PPGL.

20242025

MIBG vs DOTATATE em PPGL · OnDApp

Discussão clínica atual: em PPGL com captação dual (NET + SSTR2), Lu-DOTATATE pode ser preferido pela menor logística (sem internação radiometabólica) e melhor perfil hematológico. MIBG mantém papel em tumores NET+/SSTR− e em neuroblastoma.

02 Mecanismo molecular

O MIBG é estruturalmente similar à noradrenalina e usa a mesma porta de entrada celular: o transportador de noradrenalina (NET / hNET / SLC6A2). Uma vez dentro da célula, é armazenado em vesículas catecolaminérgicas via VMAT (transportador vesicular de monoaminas).

Mecanismo molecular do 131I-mIBG — captação pelo NET, entrada celular, armazenamento vesicular, retenção tumoral, emissão β⁻ e emissão γ para imagem
1
Captação pelo NET

O 131I-mIBG é um análogo funcional da noradrenalina e é reconhecido pelo transportador de noradrenalina (NET), expresso na membrana de células tumorais derivadas do sistema simpático/neuroendócrino.

2
Entrada celular

Após o reconhecimento pelo NET, o radiofármaco é transportado para o interior da célula tumoral por mecanismo ativo de captação, semelhante ao utilizado pelas catecolaminas.

3
Armazenamento vesicular

No citoplasma, parte do 131I-mIBG é direcionada para vesículas ou grânulos neurosecretórios, com participação do transporte vesicular associado ao fenótipo catecolaminérgico, incluindo o VMAT.

4
Retenção tumoral

A permanência intracelular e vesicular do radiofármaco favorece a retenção seletiva em tumores com expressão funcional do NET, como neuroblastoma, feocromocitoma e paraganglioma.

5
Emissão β⁻ terapêutica

O 131I emite partículas beta menos, que depositam energia em curto alcance no tecido tumoral, promovendo dano celular e lesão do DNA nas células que concentraram o radiofármaco.

6
Emissão γ / imagem

Além da emissão β⁻ terapêutica, o 131I também emite fótons gama, permitindo cintilografia ou SPECT para avaliar a distribuição do radiofármaco, confirmar captação tumoral e documentar a biodistribuição pós-terapia.

No-carrier-added (Azedra) vs MIBG tradicional

O MIBG tradicional (compounding) tem MIBG frio em concentração relativamente alta (carrier), competindo com o radioativo pelos sítios NET. O Azedra é produzido sem carrier — atividade específica até 100× maior — o que melhora captação tumoral, especialmente em pacientes com massa tumoral pequena ou expressão NET reduzida. Efeito clínico: maior eficácia em PPGL com tumores menores.

03 Esquema terapêutico

Diferentemente de Lu-PSMA / Lu-DOTATATE / Ra-223, o MIBG exige internação em quarto blindado por 4-7 dias devido à alta atividade administrada e à radiação γ de 364 keV. Esquema varia por indicação (PPGL adulto vs neuroblastoma pediátrico).

PPGL maligno (Azedra · adulto)

Dose teste222 MBq · 6 mCi
Dose terapêutica~ 18,5 GBq · 500 mCi
Intervalo~ 90 dias
Ciclos2 terapêuticos
Internação4-7 dias / ciclo

Neuroblastoma alto-risco (pediatria)

Dose padrão18 mCi/kg · 666 MBq/kg
Esquemasdose única ou 12+12 mCi/kg
Dose ablativa+ resgate hematopoiético
Combinação± vorinostat (NANT)
Pré-medicação
Antiemético 5-HT3 + dexametasona. Hidratação EV abundante para excreção urinária do MIBG não captado.
Suspensão de fármacos
Antidepressivos tricíclicos, simpaticomiméticos, labetalol, reserpina, cocaína, opioides — interferem com NET. Suspender 1-3 semanas antes.
Internação radiometabólica
Quarto blindado individual por 4-7 dias até taxa de exposição cair abaixo de limites regulatórios (varia por país).
Imagem pós-terapia
Cintilografia 24-72 h pós-injeção (γ 364 keV). Curie/SIOPEN score para neuroblastoma. SPECT/CT opcional para localização.

04 Bloqueio tireoidiano · obrigatório

Iodo-131 livre liberado do MIBG é avidamente captado pela tireoide via simporter sódio-iodeto (NIS). Sem bloqueio, a dose tireoidiana ultrapassa 20-30 Gy por sessão — risco quase certo de hipotireoidismo permanente e, em adolescentes/jovens, risco oncogênico aumentado.

Iodeto de potássio (KI / SSKI)
Adulto: 130 mg/dia (gotas SSKI ou comprimidos). Pediátrico: 1 mg/kg/dia (máx 130). Iniciar 24-48 h antes da injeção.
Lugol (alternativa)
Solução de iodeto de potássio + iodo molecular. Adulto: 0,1-0,3 mL × 3/dia. Disponibilidade variável por país.
Duração
Manter por 7-14 dias após a injeção. Iodo-131 livre continua sendo liberado durante esse período pelo metabolismo do MIBG.
Sem bloqueio
Hipotireoidismo subclínico em > 50% e clínico em 5-30% dos pacientes. Avaliar TSH em todo seguimento.
Hipotireoidismo · seguimento longo

Mesmo com bloqueio adequado, hipotireoidismo subclínico ocorre em 5-15% dos pacientes adultos e até 30% das crianças tratadas com MIBG. Avaliação de TSH/T4 livre semestral por pelo menos 5 anos é recomendada. Em sobreviventes pediátricos de neuroblastoma, surveillance estendida (incluindo crescimento e desenvolvimento) é mandatória.

05 Imagem teranóstica · Curie e SIOPEN scores

A imagem MIBG diagnóstica é mandatória antes da terapia — apenas pacientes com captação demonstrada são candidatos. Sistemas de scoring quantitativo (Curie / SIOPEN) são padrão para monitorar resposta no neuroblastoma.

123I-MIBG (preferida)
Diagnóstica · γ 159 keV
T½ 13 h, dosimetria favorável, qualidade SPECT/CT excelente. Padrão para selecionar pacientes para MIBG terapêutico.
131I-MIBG diagnóstico
γ 364 keV · imagem inferior
Alternativa quando 123I-MIBG indisponível. Imagem com colimador de alta energia. Hoje pouco usada para diagnóstico.
68Ga-DOTATATE PET
Alternativa em PPGL
Sensibilidade frequentemente superior em PPGL (especialmente SDHB-mutado). Permite teranóstica com Lu-DOTATATE.
18F-FDOPA PET
Pediátrico · cromafim
Análogo de DOPA. Excelente em PPGL pediátrico e em paragangliomas de cabeça-pescoço. Alternativa onde MIBG é equívoca.
Curie score (neuroblastoma)

Sistema de Matthay e cols. (1995): divide o esqueleto em 9 segmentos + tecidos moles. Cada sítio recebe score 0 (sem captação), 1 (1 lesão), 2 (>1 lesão pequena), 3 (lesão grande). Soma total = score Curie. Reduções de pelo menos 50% após terapia indicam resposta. SIOPEN score (12 segmentos esqueléticos) é variante europeia mais granular. Ambos são reprodutíveis e mantêm valor prognóstico mesmo na era pós-imunoterapia.

06 Ensaios pivotais

Aprovação Azedra em PPGL maligno (2018), papel histórico em neuroblastoma alto-risco e estudos modernos de combinação com epigenética e imuno.

Azedra Phase II 2019 · J Clin Oncol

PPGL maligno · n=68 · Pryma e cols. · Iobenguano I-131 (no-carrier-added)

Anti-HTN ↓ ≥ 50%
25%
Benefício clínico
92%
PFS mediano
~ 18,9 m
Aprovação FDA
jul/2018

Base regulatória do Azedra. Primeiro radiofármaco aprovado especificamente para PPGL maligno.

NANT 2011-01 2018 · J Clin Oncol

Neuroblastoma alto-risco recidivado · n=99 · MIBG ± vorinostat

ORR
38 vs 32%
PFS
+ tendência com vorinostat
Tox
comparável
Mensagem
HDACi + MIBG viável

Vorinostat aumenta NET expression. Combinação racional, sinal positivo a confirmar.

VERITAS em curso · pediátrico

Neuroblastoma alto-risco recidivado · MIBG vs busulfan/melfalan · cooperative

Endpoint
EFS · resposta
Status
recrutando
Idade
1-21 anos
Lugar
internacional

Comparação direta MIBG vs QT mieloablativa em recidiva. Estudo definidor.

COG ANBL1531 em curso · pediátrico

Neuroblastoma alto-risco · 1L · indução com MIBG no esquema multimodal

Endpoint
EFS
Status
recrutamento completo · análise
Resultados
2026
NCT
03126916

Posicionamento do MIBG na primeira linha do neuroblastoma alto-risco. Definição de papel.

MIBG-MIDAS em curso · pediátrico

Neuroblastoma · MIBG dose-aumentada + drogas adjuvantes · multicentro

Endpoint
resposta + dosimetria
Status
recrutando
Foco
dosimetria personalizada
Tipo
fase 2

Aplicação de dosimetria individualizada na pediatria. Conceito alinhado ao DOSISPHERE em Y-90.

OnDApp / MiNivAN em curso · adulto

PPGL maligno · MIBG ± nivolumab · combinação imuno-radioterapia

Endpoint
ORR · PFS
Status
recrutando
Hipótese
efeito abscopal
Tipo
fase 2

Sinergia imuno + radioterapia em PPGL. Conceito moderno aplicado a tumor raro.

Iobenguane vs Lu-DOTATATE retrospectivos · 2023-25

PPGL maligno · comparações observacionais · n variável

Resposta
comparável em SSTR+/NET+
Tox hema
menor com Lu-DOTATATE
Logística
mais simples com Lu-DOTATATE
Conclusão
complementares

Em PPGL com captação dual, Lu-DOTATATE tem ganhado preferência. MIBG mantém papel em NET+/SSTR−.

Hoefnagel série 1985-2010 · histórica

PPGL maligno e neuroblastoma · > 350 pacientes · NKI Amsterdam

ORR PPGL
25-40%
Resposta sintomática
60-70%
PFS mediano
12-24 m
Tox
manejável

Maior experiência mundial com MIBG terapêutico. Base prática que inspirou registros e ensaios fase 2/3.

07 Dosimetria

Dose para tumor é alta e heterogênea (depende de captação NET). Bexiga é o órgão mais irradiado pela excreção urinária. Tireoide bloqueada recebe pouca dose; sem bloqueio, é o órgão crítico.

Órgão / tecido Dose por MBq (mGy/MBq) Visualização Observação
Tumor (mediana)variável · 5-50 Gy/dose
Heterogeneidade alta
Bexiga (parede)~ 0,18
Excreção urinária · hidratação reduz
Glândulas salivares~ 0,07
Captação NET intrínseca
Coração~ 0,07
Inervação simpática miocárdica
Fígado~ 0,07
Metabolismo hepático
Medula vermelha~ 0,07
Citopenia é dose-limitante
Tireoide (com bloqueio)~ 0,01
KI/Lugol mandatório
Tireoide (sem bloqueio)~ 1,5 — 3,0
Hipotireoidismo quase certo
Dosimetria de medula em pediatria

Em neuroblastoma alto-risco com extensa carga óssea, a dose absorvida na medula pode atingir 2-3 Gy por sessão de MIBG terapêutico — limítrofe com toxicidade hematológica. Dose ablativa (>500 mCi total cumulativo) requer resgate de células-tronco hematopoiéticas autólogas. Centros de pediatria oncológica que oferecem MIBG terapêutico devem ter banco de stem cells e UTI pediátrica disponíveis.

08 Eventos adversos

Hematológica é dose-limitante (especialmente em neuroblastoma com doses altas). Hipotireoidismo é a sequela tardia mais frequente. Crise hipertensiva é raro mas grave em PPGL não bloqueado.

Náusea peri-injeção
~ 50%G3 < 5%
Trombocitopenia
~ 35%G3-4 ~ 15%
Anemia
~ 30%G3-4 ~ 10%
Linfopenia
~ 50%G3-4 ~ 20%
Hipotireoidismo
~ 15%manejável (levotiroxina)
Sialoadenite / xerostomia
~ 10%leve
Crise hipertensiva (PPGL)
< 5%grave se não bloqueado
SMD/leucemia secundária
~ 1-7% pediatriagrave · longo prazo
Bloqueio adrenérgico em PPGL

Em pacientes com PPGL funcionante, bloqueio alfa-adrenérgico (fenoxibenzamina, doxazosina) por 10-14 dias antes do MIBG é mandatório. A liberação de catecolaminas pelo dano celular induzido pela radiação pode precipitar crise hipertensiva. Beta-bloqueador só após bloqueio alfa estabelecido. Hidratação EV abundante peri-procedimento.

09 Perspectivas

A frente MIBG caminha em três direções: aumentar expressão NET com epigenética, combinar com imunoterapia em PPGL, e migrar para alfa-emissores no longo prazo.

MIBG + HDAC inhibitor
Vorinostat, panobinostat
HDAC inhibitors aumentam expressão de NET — convertendo tumores frios em quentes para MIBG. NANT consortium liderou estudos.
MIBG + nivolumab
PPGL · OnDApp / MiNivAN
Combinação imunorradiação. Hipótese: efeito abscopal mediado por liberação de antígenos. Resultados aguardados 2026-27.
211At-MABG
Alfa-emissor · MABG
Astato-211 ligado ao MABG (análogo do MIBG). Fase 1 piloto em PPGL e neuroblastoma. Logística limitada por T½ 7,2 h.
Sequenciamento MIBG ↔ Lu-DOTATATE
PPGL com captação dual
Em PPGL com NET+ e SSTR+, alguns centros sequenciam: MIBG primeiro, Lu-DOTATATE em progressão (ou inversa). Estratégia ainda observacional.
Quando escolher MIBG hoje?

Em 2026, MIBG terapêutico mantém papel definitivo em (1) neuroblastoma alto-risco refratário/recidivado com captação MIBG positiva, (2) PPGL maligno com captação MIBG dominante e SSTR− ou variável, e (3) cenários de combinação (epigenética, imuno) em centros de pesquisa. Perdeu espaço para Lu-DOTATATE em PPGL com SSTR alta, especialmente em centros sem infraestrutura de internação radiometabólica prolongada.